Rafiki, filme queniano proibido no país e em cartaz no Brasil, é exemplo de luta e resistência

O filme queniano “Rafiki”, da diretora e roteirista Wanuri Kahiu, chega aos cinemas do Brasil no mês de agosto, mês da visibilidade lésbica no Brasil. A trajetória de luta, resistência e coragem do filme, propriamente dito, se funde com a forma como a história e as personagens vão evoluindo em suas buscas e entregas no decorrer da trama; é como se o romance das protagonistas fosse uma metalinguagem da luta que a própria produção precisou travar para continuar existindo como um verdadeiro ato de amor e resistência. “Um trabalho árduo de amor”, como a própria diretora definiu.

“Rafiki” é de uma delicadeza impressionante, ainda mais – e principalmente – pelo contexto em que as duas protagonistas Kena (Sheila Munyiva) e Ziki (Samantha Mugatsia) se conhecem e se apaixonam: elas moram no mesmo conjunto habitacional, mas são filhas de rivais políticos o que nos transporta inevitavelmente ao clássico Romeu e Julieta. Mas vai além disso: a forma como elas lentamente se entregam a esse sentimento, como se não soubessem do risco que correm, é envolvente e, ao mesmo tempo que angustia o espectador, dá também uma esperança inabalável de que aquele amor vai ser vivido do jeito mais belo possível.

O longa-metragem estreou mundialmente no dia 9 de maio de 2018, no Festival de Cannes, na seção Un Certain Regard e Queer Palm. Foi a primeira vez que um filme queniano integrou a seleção oficial de Cannes, o que revelou a primeira de uma série de conquistas da diretora, da equipe, de todos os homossexuais do Quênia (e por que não dizer, do mundo) e, sobretudo, do Quênia, propriamente, embora muitos quenianos não reconheçam.

A palavra “Rafiki” significa “amigo/amiga” em swahili e é como casais homossexuais costumam se tratar socialmente no país. O filme é uma adaptação do conto Jambula Tree, da premiada escritora ugandesa Monica Arac de Nyeko, e conta a história de duas amigas que se apaixonam em Nairobi, cidade queniana conservadora e homofóbica, e enfrentam o julgamento e a pressão de todos os lados possíveis, principalmente da lei.

No Quênia, assim como em mais 69 países do mundo, a maior parte deles (33) africanos, a homossexualidade é crime. No país, o que o governo chama de “atos homossexuais” podem ser punidos com até 14 anos de prisão. Em 2018, ano de sua estreia, “Rafiki” foi proibido pela Comissão de Classificação de Cinema do Quénia (KFCB, na sigla inglesa) simplesmente por se tratar de uma história de amor entre duas mulheres e, segundo eles “por tentar legitimar uma relação lésbica”. O impedimento de estrear comercialmente no país na época colocou em risco a possibilidade de o longa ser indicado como possível concorrente ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro na competição de 2019.

O filme resistiu, mais uma vez. A diretora processou o Quênia e no dia 21 de setembro de 2018, a juíza Wilfrida Okwany liberou a exibição do filme por sete dias, permitindo que o filme pudesse ser considerado para representar o país no Oscar (o que ainda desagradou bastante gente). Segundo comunicado da Comissão (KFCB), divulgado no twitter, a autorização foi uma tentativa de normalizar a homossexualidade e “um grande insulto, não só para a indústria cinematográfica mas para todos os quenianos com moral, que um filme que glorifique a homossexualidade seja autorizado para ser a imagem do nosso país no estrangeiro”. A resposta foi a primeira sessão queniana do filme esgotada.

Oh minha Nairobi!!! Obrigada por terem esgotado a primeira sessão!! Obrigada por terem assistido ao filme. Obrigada por acreditarem!!! (Esperamos não ter convertido vocês)! #Rafiki

Rafiki segue dando passos firmes e conquistando o mundo. Definitivamente um filme necessário, comovente e já se pode dizer histórico, principalmente porque reivindica um direito tão simples e negado a tantas pessoas no mundo, que é o direito de amar.

Chegou ao Brasil no dia 8 de agosto, em 11 cidades, e agora vai para sua segunda semana no país, nas cidades de Aracaju, Brasília, Curitiba, Manaus, Porto Alegre, São Paulo, Teresina e Vitória. As cidades de Salvador, Rio de Janeiro, Recife, Balneário Camboriú, Fortaleza e Barueri recebem o filme em sua primeira semana, de 15 a 21 de agosto. Outras informações e novidades é possível acompanhar no instagram do filme @rafikifilme.

CINE SEMANA – RAFIKI – 15 A 21 DE AGOSTO – BRASIL

ARACAJU :: Kine Vitória

BALNEÁRIO CAMBORIÚ :: CINERAMA BC

BARUERI :: Cinépolis – Iguatemi Alphaville

BRASÍLIA :: Espaço Itaú de Cinema – Casa Park

CURITIBA :: Espaço Itaú – Shopping Crystal| Cine Passeio

FORTALEZA :: Cinépolis – Riomar Fortaleza

JABOATÃO DOS GUARARAPES :: Cinépolis – Shopping Guararapes

MANAUS :: Casarão de Ideias

PORTO ALEGRE :: Cinemateca Capitólio

RECIFE :: Cinema da Fundação

RIO DE JANEIRO :: Estação Net – Rio

SALVADOR :: Cinépolis Bela Vista

SÃO PAULO :: Cine Sesc | Cine Olido (Circuito Spcine) | Espaço Itaú – Frei Caneca

TERESINA :: Cinemas Teresina

VITÓRIA :: Cine Metrópolis

 

*DICA 1: Para quem mora em São Paulo, o filme acaba de entrar no Circuito Spcine, e está em cartaz na Galeria Olido, por R$4 a inteira (R$2 a meia). Imperdível mesmo.

*DICA 2: Ah, quem quiser ler o conto que inspirou o filme, dá pra acessar a versão em inglês por esse link aqui

 

 

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