Cineclube para crianças em Natal: Núcleo de Educação da Infância da UFRN aposta em práticas que têm as crianças como protagonistas

Escutar o outro já é um exercício difícil para a maioria das pessoas e se torna ainda mais raro quando falamos de escutar as crianças, muitas vezes subestimadas. De acordo com educadora e pesquisadora nas temáticas da infância, Adriana Friedmann, “é no caminho de observar, escutar, dar voz às crianças e propiciar espaços de expressão, que a Antropologia contribui, com seu olhar e reconhecimento das crianças como atores sociais, apontando a diversidade de culturas e linguagens infantis”. A reflexão está na introdução do livro “Escuta e observação de crianças: processos inspiradores para educadores”, organizado por Adriana, e é fruto de uma experiência de observação e escuta com 14 pesquisadores, lançado em 2018. A publicação vai de encontro com a proposta do CiNEIclube, um cineclube formado exclusivamente por crianças, em Natal, no Rio Grande do Norte.

Os educadores Milene Figueiredo e Sandro Cordeiro, do Núcleo de Educação da Infância – NEI-CAp da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, estão avançando nesse diálogo com as crianças do NEI. O interesse e a pesquisa já existem há anos no Núcleo, por meio da realização de Festivais de Curtas na escola e atividades com crianças do Ensino fundamental (1º ao 5º ano), mas foi em 2017, a partir do projeto de extensão “Práticas cineclubistas na escola da infância“, que o educadores puderam identificar o avanço dos alunos com relação a essa comunicação ligada ao audiovisual. “A partir do CiNEIclube” (nome de batismo do projeto dado pelas crianças), identificamos o quanto nossos alunos, ao terem a possibilidade de pensar, dialogar e produzir audiovisual, conseguem utilizá-lo como meio de comunicação”, afirma Milene.

Em parceria com acadêmicos do curso de Comunicação-Audiovisual (UFRN) e Produção Cultural (IFRN), o Núcleo já realizou mostras internas com produções pensadas e realizadas pelas crianças. O cineasta e parceiro do projeto Sihan Felix, trabalhou com a equipe na realização de oficinas com as crianças, que resultaram em quatro curtas-metragens, executados pelas crianças e orientados e editados pelo cineasta, com a supervisão dos pequenos realizadores. Dessas produções, três curtas já participaram de festivais de cinema voltados tanto para o público infantil como também para o público adulto e foram premiados. “Esse histórico nos mobiliza a cada vez mais trabalharmos e investirmos em espaços, na escola, para as crianças refletirem e produzirem cinema!”, se entusiasma. “Também queremos apostar no trabalho com cinema e acessibilidade, e convidamos pessoas da UFRN que se juntarão a nós para pensarmos diferentes estratégias de democratizar ainda mais o cinema.” No próximo dia 12 o Núcleo realiza a primeira sessão do CiNEIclube com exibição de um curta-metragem com audiodescrição.

Além de ceder um espaço para que as crianças falem e, consequentemente sejam ouvidas, muitas vezes com perguntas que nem um adulto faria, o projeto propõe um exercício para que elas também sejam alfabetizadas no audiovisual. “Entendemos que é imprescindível, nos tempos atuais, a escola pensar nas relações estabelecidas entre as crianças e as mídias, propondo momentos de reflexão dessas diferentes linguagens e produção de produtos específicos das diferentes mídias”, acredita.

De acordo com a pesquisa mais recente do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), a TIC Kids Online Brasil, com dados de 2017, 85% das pessoas entre 9 e 17 anos podem acessar à rede. Sendo que 77% utilizam para assistir vídeos. A pesquisa se detém a crianças e adolescentes entre 9 a 17 anos e foi realizada entre novembro de 2017 e maio de 2018.

outro levantamento realizado em 2019 pelo AppGuardian, um aplicativo de controle parental, considera crianças e adolescentes entre 5 e 15 anos e revela que eles passam, em média, 25 horas por mês consumindo audiovisual, por meio do YouTube.

“As crianças contemporâneas precisam ser educadas para ‘lerem’ a infinidade de materiais audiovisuais com que entram em contato diariamente. Novos fenômenos contemporâneos surgem, e, hoje em dia, as crianças já entendem os ‘youtubers’ como um profissão e um sinal de status entre eles”, alerta Milene.

Mas estamos ensinando as crianças a serem expectadores críticos dessas mídias? E quem pode ensinar, está preparado?

Todo debate sobre a alfabetização audiovisual das crianças passa pela discussão sobre a formação de professores e educadores nesta área. Pensando nisso, o Núcleo de Educação da Infância – NEI-CAp da UFRN decidiu investir na formação continuada para o trabalho com cinema na educação.

Este ano foi realizada a primeira Ação Formativa com professores e educadores de Natal e região. Com a participação de 50 profissionais, a ação foi dividida em um encontro teórico, onde foram discutidos referenciais para desenvolver um trabalho com o cinema na educação, e um encontro prático com Sihan Felix, abordando os principais aspectos que compõem uma obra audiovisual e a importância desses elementos para conseguirmos desenvolver nossa leitura crítica para esse tipo de mídia. Além disso, houve uma análise crítica coletiva com os participantes através da apreciação dos curtas-metragens produzidos pelas crianças ao longo dos últimos dois anos nas oficinas do NEI. “Conseguimos pensar o CiNEIclube em uma nova esfera, como uma ‘rede colaborativa’, acreditando que nosso trabalho e nossas experiências precisam ajudar professores e educadores em diferentes instituições a desenvolverem nossas experiências formativas com crianças e adolescentes para o uso crítico e criativo das diferentes mídias”, revela Milene.

O próximo passo é concluir a produção de uma cartilha para escolas e professores, com dicas sobre possíveis caminhos para desenvolver práticas cineclubistas nas escolas e introduzir o audiovisual no cotidiano dos alunos de maneira pedagógica.

“Foi muito emocionante ouvir os professores refletirem sobre a importância dessa formação como uma nova ‘luz’ em meio a tempos tão difíceis e sombrios”. Milene Figueiredo

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