Estreia: “Sementes: Mulheres Pretas no Poder” acompanha o germinar de mulheres negras na política em resposta ao assassinato da vereadora Marielle Franco, em 2018

Estreia nesta segunda (07) o documentário “Sementes: Mulheres Pretas no Poder”, de Éthel Oliveira e Júlia Mariano, que lança para todo mundo de forma gratuita e online, verdadeiras sementes de esperança e de luta. O filme será disponibilizado no site da Embaúba Filmes, a partir das 19h desta segunda até o dia 30 de setembro.

O longa, realizado com baixo orçamento, foi rodado no Rio de Janeiro, durante o primeiro turno das eleições de 2018 no Brasil, e acompanha seis mulheres negras candidatas: Mônica Francisco, Renata Souza, Talíria Petrone, Rose Cipriano, Tainá de Paula e Jaqueline Gomes. 

As imagens percorrem o cotidiano dessas mulheres, mostram as dificuldades financeiras que enfrentam e os obstáculos que precisam ser ultrapassados para serem ouvidas e conseguirem resgatar eleitores desacreditados de volta às urnas. 

No dia 14 de março de 2018, a vereadora Marielle Franco foi brutalmente executada no Rio de Janeiro, gerando comoção não só no Brasil, mas em todo o mundo. A tristeza e a indignação diante da tentativa de silenciamento de Marielle se transformaram em força, energia e adubo para que outras mulheres negras, parceiras de luta, se percebessem sementes e sentissem que era urgente germinar. 

Nas eleições de 2018, 4398 mulheres negras se candidataram a cargos legislativos, representando um aumento de 93% de candidaturas autodeclaradas negras em comparação a eleição anterior.  

O documentário mostra de forma muito humana como é o processo de construção dessas mulheres como figuras políticas, que realizam um trabalho árduo, cuidadoso e atento de preparo da terra para o cultivo de sementes que, como o próprio nome diz, são elas mesmas: mulheres negras, resistentes como um baobá, a maior e mais duradoura espécie de árvore do mundo, nativa das savanas africanas.

Com uma equipe majoritariamente feminina composta por mulheres brancas e pretas, a produção contou com uma equipe técnica formada por mulheres pretas na direção, roteiro, direção de fotografia e trilha sonora, o que assegurou um olhar preciso sob a perspectiva das mulheres negras retratadas. 

O Brasil é o país com a menor representação parlamentar feminina na América do Sul, com menos de 10% de cadeiras, existentes na câmara dos deputados, ocupadas por mulheres. No dia em que o Brasil diz comemorar sua independência, “Sementes: Mulheres Pretas no Poder” nos mostra que há ainda um longo caminho a percorrer rumo à chamada “nação independente”. Essa mesma nação que, atualmente, conta com 56,10% da população do Brasil autodeclarada negra, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad). Os dados do último Estudo Desigualdades Sociais por Cor ou Raça divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que mesmo sendo maioria da população, os negros ocupam apenas 24,4% das cadeiras dos deputados federais e 28,9% das cadeiras de deputados estaduais eleitos em 2018.

DEBATE ONLINE NO YOUTUBE DA EMBAÚBA FILMES

Na terça-feira (08), será realizado também um debate online às 20h no Youtube da Embaúba Filmes. Participam do encontro as diretoras do filme, Éthel Oliveira e Júlia Mariano; Aanielle Franco, diretora do Instituto Marielle Franco e três das personagens retratadas no filme, que foram candidatas em 2018: Rose Cipriano, professora e militante; Tainá de Paula, arquiteta e urbanista e a deputada federal Talíria Petrone. Com o tema “Ocupação da política”, esse debate será realizado em parceria com a Taturana Mobilização Social e mediado pela jornalista Didi Couto.

AS PERSONAGENS

MÔNICA FRANCISCO, 48 anos

Ex- assessora de Marielle Franco, é pastora evangélica e militante do movimento de favelas no Rio de Janeiro. Se define como “mulher, negra e defensora da Comunicação Comunitária e Popular”. Durante muitos anos atuou no Movimento de Rádios Comunitárias e é fundadora da Rede de Instituições do Borel e do Grupo Arteiras. Integrou a equipe da Mandata da vereadora Marielle Franco na equipe de Favelas. É natural do Morro do Borel, está filiada ao PSOL RJ e foi eleita deputada estadual em 2018 com 40.631 votos.

ROSE CIPRIANO, 45 anos

É professora da rede municipal de Duque de Caxias. Nascida na Vila Cruzeiro e criada na Figueira, comunidades icônicas do Rio de Janeiro, ingressa no Instituto de Educação Roberto Silveira em 1989. Se gradua em Matemática e se especializa em educação especial. Na juventude, atuou na Pastoral do Negro, em São João de Meriti e Caxias, e no PVNC (Pré-Vestibular para Negros e Carentes). Foi professora da rede estadual entre 1992 e 1996 e desde 1997 ensina na rede municipal de Duque de Caxias mesclando suas atividades com as do SEPE-Caxias, órgão do qual faz parte desde 2006. Esse é o lugar e o olhar de Rose: a periferia, a luta das mulheres e dos negros e negras, a educação pública e de qualidade para todos. Foi candidata a deputada estadual pelo PSOL-RJ, obteve 17.483 votos em 2018. 

TAINÁ DE PAULA, 35 anos

É arquiteta e urbanista, ativista feminista, atua nas áreas de habitação popular, planejamento urbano e arquitetura pública. Coordenadora Regional da Plataforma Brasil Cidades, integrante da Comissão para a Equidade de Gênero no CAU/RJ e presta assistência técnica para o Movimento dos Trabalhadores sem Teto (MTST) do Rio de Janeiro. Integra os coletivos #partidA Feminista e Intelectuais Negras Zacimba Gaba. Tainá de Paula foi candidata a deputada estadual pelo PcdoB em 2018, obtendo um pouco mais que 8500 votos. 

JAQUELINE GOMES, 40 anos

Jaqueline é mulher negra e a primeira trans a ser candidata pelo Partido dos Trabalhadores no Rio de Janeiro a uma vaga na câmara legislativa no Rio de Janeiro. Jaque também é professora na Baixada Fluminense, pesquisadora, comprometida com os direitos humanos e a luta contra o racismo, o machismo, as LGBTfobias e quaisquer outras intolerâncias. Sua bandeira é construir um mandato coletivo a serviço da justiça, da educação pública, dos direitos das mulheres, da igualdade e da efetiva valorização da diversidade. Reconhecendo sua trajetória única, a vereadora Marielle Franco lhe concedeu a Medalha Chiquinha Gonzaga em 2017. Jaqueline foi candidata a deputada estadual pelo PT RJ, obtendo um pouco mais que 2200 votos.

 RENATA SOUZA, 36 anos

Jornalista e cria da Maré, foi eleita como deputada estadual com mais de 60.000 votos. Renata se define como mulher, negra e feminista. Parceira de Marielle Franco desde 2000, quando se conheceram no Censo da Maré, pré vestibular comunitário frequentado por ambas. Pós-doutoranda em Comunicação pela UFF, Renata atua desde 2006 na política institucional, quando junto com Marielle, compôs a comissão de direitos humanos da ALERJ, presidida pelo deputado estadual Marcelo Freixo. Desde então, a pauta da Segurança Pública é central em suas ações, seja na militância nos movimentos sociais, na política partidária e também na universidade. Renata já conhece a máquina do estado por dentro e teve uma base partidária mais sólida para sua candidatura. Em 2018, foi eleita deputada estadual pelo PSOL RJ e desde o princípio do seu mandato preside a comissão de direitos humanos da ALERJ, colidindo de frente com a política de segurança do governador Wilson Witzel.

TALÍRIA PETRONE, 33 anos

Eleita deputada federal, em 2018, com mais de 100.000 votos, havia sido a vereadora mais votada, em Niterói, em 2016. Desde o início de seu mandato Talíria enfrenta ameaças e a intolerância, principalmente nas redes sociais. Mensagens de ódio, recobertas de violência como “tem que voltar pra senzala”, “tem que meter uma bala na cara” são constantes nas redes sociais da, hoje, deputada. Talíria enfrentou a animosidade de vereadores da Câmara de Niterói, onde diariamente, precisou responder aos insultos e atos de intolerância cometidos por seus “colegas de trabalho”. Desde a execução de Marielle vive sob escolta policial, só se locomovendo em carro blindado. Diz que a única resposta possível a tudo isso é seguir firme e em frente na luta e na política, disputando ainda mais estes territórios institucionais. “Não vão nos calar!” reafirma.

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