De Peito Aberto: documentário se aprofunda em questões reais da maternidade e mostra que hoje amamentar é um ato político e de resistência

Impossível falar sobre aleitamento materno sem falar de todas as dificuldades e medos que uma mulher enfrenta a partir do momento em que entra em contato com a maternidade.

O documentário De Peito Aberto, da diretora Gabriela Mantoanelli, acaba de chegar aos cinemas brasileiros (3/10) e, embora mostre da maneira mais direta possível as entrelinhas de ser mãe, não se limita a trazer apenas vivências individuais de cada personagem.

O filme apresenta seis histórias independentes, interligadas por um fio condutor que também irá conectar muitas mães em todo mundo, principalmente no Brasil: a aflição de mulheres que acabaram de se tornar mães e que desejam alimentar os filhos pela amamentação exclusiva nos primeiros 180 dias de vida (o bebê não consome nada, nem mesmo água, além do leite da mãe durante os seis primeiros meses de vida). Mas a questão é: qual o motivo para tanta aflição se amamentar é tão natural e se a Organização Mundial de Saúde recomenda a prática exclusiva neste período?

No Brasil somente 39% das mães oferecem aleitamento materno exclusivo aos filhos nos primeiros 180 dias de vida, sendo uma média nacional de apenas 54 dias.

A cena se repete em inúmeros lares: mães sobrecarregadas e pressionadas pelo próprio anseio de conseguir ser o que idealizaram (ou o que pensam que esperam delas). Só o que muda é o contexto: a amamentação exclusiva tende a ser sabotada, seja porque a mãe precisa voltar a trabalhar, ou porque ela não consegue produzir leite (em geral por questões emocionais), ou porque o peito ficou machucado e dificultou o processo. Pode ser simplesmente porque dói ou, ainda, e talvez mais grave, porque os familiares pressionam a mãe por acharem um exagero o desejo da amamentação exclusiva.

Quando todas as fragilidades estão expostas, sutilmente o filme oferece uma rede invisível e potente de acolhimento, conectando cada uma dessas mulheres apresentadas a todas que tomam conhecimento dessas histórias; essa rede é importantíssima, porque suporta o peso e assegura: mãe, você não está sozinha e não deve se sentir culpada.

É nesse momento que um dos grandes argumentos do roteiro vai sendo revelado e o motivo da aflição é explicitado. Quem aflige é a própria sociedade. “É muito difícil para o mundo ver uma mulher deixando de produzir para o sistema do capital e passando a produzir leite”, pontua o psicólogo Alexandre Coimbra, entrevistado no longa. Somado a isso, vários especialistas, entre eles médicos, revelam estratégias das indústrias de alimentos infantis, que tentam induzir os profissionais a introduzirem os alimentos cada vez mais cedo na vida dos bebês. Para muito, nada de novo: só o famigerado capitalismo em ação.

Há um conflito constante e velado entre as mães e toda a sociedade, relacionado à forma como historicamente a mulher é vista e condicionada socialmente, e que exige que mulheres sejam mães como se não trabalhassem fora, e que trabalhem fora como se não fossem mães.

O filme faz um resgate histórico para explicar o processo de desmame e passa pelo Brasil escravagista, que submetia as mulheres negras a amamentarem os filhos do brancos, preterindo sua própria cria. Passado que implica em discussões ainda mais aprofundadas quando falamos de mães negras.

Mais do que conscientizar as pessoas sobre a importância do aleitamento, é preciso apoiar, de fato, as mulheres que optam pela amamentação exclusiva, pela livre demanda e pela prática em qualquer lugar, sem olhares tortos e de julgamento.

Uma obra necessária, pela empatia e acolhimento que gera, pelo conteúdo compartilhado por especialistas como o pediatra espanhol Carlos González e, sobretudo, por ser também um filme político, que reforça a amamentação como um ato de resistência e escancara um sistema que massacra mulheres, sobrecarregando e superexigindo de mães física e psicologicamente.

De Peito Aberto acaba de chegar aos cinemas de São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Curitiba, Belo Horizonte, Brasília, Salvador, Aracaju, Palmas e Volta Redonda. A partir do dia 8 de outubro também integra a programação de 10 salas do Cine Materna.

Assista o trailer:

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