Setembro Azul: Acessibilidade para surdos vai além da tradução de obras para LIBRAS e passa pela inclusão de profissionais no mercado audiovisual

O último prazo para as salas de cinema brasileiras se adequarem às normas da Agência Nacional do Cinema (ANCINE) e serem totalmente acessíveis é janeiro de 2020. Atualmente apenas 15% das salas está adequadas. De acordo com o censo demográfico mais recente do IBGE (2010), o Brasil conta com cerca de 46 milhões de pessoas com alguma deficiência. Desses, 9,7 milhões são pessoas surdas ou com alguma deficiência auditiva.

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Foi com a aprovação do Estatuto da Pessoa com Deficiência, também conhecido como LBI (Lei Brasileira de Inclusão), em 2015, uma das leis mais completas sobre acessibilidade no Brasil, que o direito total e igual às pessoas com deficiência passou a ser levado, de fato, em consideração. A Lei entrou em vigor em 2016, mesmo ano em que a ANCINE anunciou a Instrução Normativa nº 128/2016, determinando a obrigatoriedade de recursos de acessibilidade visual e auditiva nos segmentos de distribuição e exibição cinematográfica. Na prática, segundo a norma, as salas de exibição comercial devem dispor de legendagem, legendagem descritiva, áudio descrição e LIBRAS – Língua Brasileira de Sinais.

De acordo com esta Instrução Normativa, todas as salas de cinema brasileiras têm até janeiro de 2020 para se adequar, sob pena de multa. De acordo com a ANCINE, no final de junho desde ano a meta de 15% das salas de cinema dos maiores grupos exibidores do país equipadas havia sido cumprida. O próximo levantamento seria em setembro, mas não foi divulgado ainda. A lista de cinemas brasileiros acessíveis até o momento está disponível no site da ANCINE.

Muito antes de todo esse movimento ganhar força, em 1995, nasceu a produtora catarinense Filmes que Voam, que realiza produção e a distribuição de conteúdo audiovisual acessível e compartilha conhecimento relacionado, por meio de cursos e materiais no site. “Partimos para isso devido à demanda e as possibilidades reais de inclusão. As versões acessíveis são traduções como outras, e trazem mais benefícios do que custos”, aponta Chico Faganello, diretor da produtora.

A Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) tem parâmetros específicos relacionados à janela com o tradutor de LIBRAS no canto inferior direito da tela, mas existem outros métodos de se fazer. A Filmes que Voam inova em formatos, baseados em pesquisas realizadas com usuários surdos. “Usamos, dependendo do filme, diferentes tradutores – personagens masculinos e femininos, por exemplo – e em casos de diálogos, mudamos a posição dos tradutores para as falas. Além disso, integramos o tradutor com o figurino no ambiente do filme”, explica.

Além da janela, outro caminho, mais possível em salas de cinemas maiores, é disponibilizar, na bilheteria, equipamentos que transmitem a acessibilidade separada e apenas para os usuários que necessitarem de acordo com sua deficiência.

A preocupação de Faganello hoje, e não só dele, é com o filtro do mercado: “existem muitos aventureiros e equipes despreparadas fazendo o trabalho de qualquer jeito. É preciso valorizar a qualidade dos serviços e SEMPRE ter consultores cegos e surdos nas equipes”, afirma. Pensando nisso, a produtora oferece oficinas e cursos, alguns disponíveis online, relacionados a acessibilidade tanto de cegos como de surdos.

Inclusão X Representatividade

Cena do curta-metragem CRISÁLIDA, de Alessandra da Rosa Pinho

Além da reflexão sobre a inclusão do público surdo, é preciso pensar também na questão da representatividade, que vai muito além de tornar os filmes acessíveis e toca em outro ponto importantíssimo: tornar o mercado acessível.

O projeto Surdo Cinema vai ao encontro desta questão e permite a capacitação de profissionais surdos. Idealizado em 2017 pelo artista brasiliense William Thomaz que trabalha com cultura e acessibilidade há mais de 10 anos, em 2019 saiu do papel com o apoio do Fundo de Apoio à Cultura – FAC, Secretaria de Cultura e Governo do Distrito Federal; e da Associação de Pais e Amigos de Deficientes Auditivos – Apada/DF. Os participantes recebem aulas práticas e teóricas para a realização de um filme, tornam-se agentes e protagonistas de suas obras, e depois seus curtas são exibidos na Mostra Surdo Cinema. Além disso, o projeto se propõe a desenvolver um canal de comunicação e difusão da cultura surda, e possibilitar uma rede de colaboração entre usuários e não usuários da LIBRAS.

A imagem pode conter: 16 pessoas, pessoas sorrindo, pessoas no palco

Um dos pontos mais importantes é que para tornar o mercado acessível, é necessário que haja profissionais acessíveis, ou seja, profissionais (ouvintes ou não) aptos a se comunicarem com as pessoas surdas, o que não acontece na prática. Em abril deste ano a Agência Senado publicou uma reportagem sobre o baixo alcance da linguagem de sinais e sobre como isso tem levado essas pessoas ao isolamento.

O curta “Libras é Merda?”, do diretor e roteirista Johnnatan Albert, aborda este isolamento de maneira provocativa: a protagonista maltrata um surdo e, de uma hora para outra, se vê inserida em um mundo diferente, onde todos se comunicam pela linguagem de sinais. O principal conflito se dá quando ela acaba sendo presa pela polícia por engano e não consegue explicar que não tem relação com o crime, pois ninguém fala sua língua. Há uma inversão de papéis e a protagonista passa a ser a excluída; diante disso a personagem surta. O filme é uma das produções realizadas na primeira edição do projeto Surdo Cinema e exibido na Mostra homônima.

Outro projeto importante quando o assunto é representatividade é a série Crisálida, da diretora Alessandra da Rosa Pinho, que acaba de estrear na TV Cultura. O projeto tem também um curta-metragem homônimo que é, na verdade, o piloto da série (e está disponível e acessível no site da Filmes que Voam). E a diretora concluiu recentemente a produção do longa-metragem Crisálida, também um desdobramento da ideia inicial, que acabou de ser exibido no Florianópolis Audiovisual Mercosul (FAM). Os três são produções bilíngues em LIBRAS e Português. “O longa acabou de ficar pronto, só inscrevi no FAM até agora. Vamos inscrevê-lo em outros festivais, fazer o circuito, mas o plano é estrear comercialmente sim”, conta Alessandra, empolgada com a repercussão do projeto. Já a série tem quatro episódios e está em exibição na TV Cultura. O primeiro foi exibido no dia 26, os próximos são toda quinta-feira, nos dias 3, 10 e 17 de outubro, às 19h15.

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